Carta aberta a quem possa interessar

Muitas, senão todas as pessoas que se relacionaram comigo em algum grau mais íntimo ou proximo, seja como amigos, colegas de trabalho, conhecidos e namorados conseguiram ver o meu problema com a ansiedade, com meu lado impulsivo e colérico, com minhas crises de infinitas paranóias e medos. São coisas sobre mim muito pesadas, onde além de me afetar, desgastou quem estava ao meu redor e as relações com essas pessoas que lutei tanto pra enraizar.

Emocionalmente hj sou e estou uma pessoa solitária

Luto diariamente contra o eu na minha cabeça pra continuar convivendo, interagindo, muitas vezes só reagindo e por isso poucos sabem da sólida e palpável sensação de solidão que me atormenta e acompanha a alguns bons anos.

Pq tô aqui expondo isso? Pra pedir desculpas por não conseguir ser a amiga presente e fervorosa ou a companhia agradável pra um café a tarde.
Eu entendo que vcs tentaram ficar perto o quanto puderam, sei que relevaram palavras grosseiras que lancei como pedras em surtos de ira, entendo pq hj os convites não chegam, as mensagens são apagadas e o lugares que baguncei entregues pra aqueles mais calmos, gentis e cheios das palavras que vcs querem ouvir.

Saibam que eu também tentei me manter próxima a mim. Tento, tentei.
Mas percebi tbm a minha hora de desistir.

Abracei tantas pessoas, vivi tantos lutos que não eram meus, segurei tantas mãos trêmulas, enxuguei tantas lágrimas que não foram por culpa minha, acalentei corações enquanto o meu gritava de dor, sonhei sonhos que não eram meus até aprender a amá-los, vi meus amores se entregando pra outras, assisti desafetos me vencendo. E acabei aqui. Abraçada a essa amiga fria e cruel que de certa forma até se parece comigo.

Talvez seja melhor assim.

Enquadramento perfeito

Engraçado como ele continua sendo um desconhecido que eu amo não conhecer. Ele tem a vida dele, a rotina, os problemas, os conhecidos, os amores que são só dele e dos quais eu não sei nada sobre. E mesmo assim eu adoro a companhia dele, entre fumaças, risadas, conversas aleatórias e silêncios quase constrangedores.

Aquelas horas junto dele são misteriosas, quentes e divertidas, aparentemente não temos absolutamente nada em comum e mesmo assim conseguimos criar um tempo-espaço onde tudo que somos e fazemos faz sentido um pro outro. Por algumas horas ele cabe perfeitamente na moldura do meu cotidiano. Preenche os frames vazios dos meus dias repetitivos.

Nunca sei quando ele vai aparecer, quando a notificação dele vai surgir na parte superior do meu celular ou quando ele vai estar na cidade. Eu nunca o espero, mas sempre o aguardo. Sim, nem eu entendo.

Mas ele sempre aparece. Cheio do estilo e da timidez que é característico dele.

E eu o observo. Fotografo mentalmente todos os trejeitos e manias dele. Desde a forma como ele solta a fumaça do “beck” criando um fantasma no ar, os olhos que fecham e abrem com uma rapidez característica de uma mente que trabalha na mesma intensidade, o jeito que olha pra tela do computador enquanto procura aquela música que citou enquanto fumavámos e conversávamos sobre como existem níveis na forma de “ouvir” uma música.

Ele é um enquadramento perfeito que eu amo observar

Aquele maldito texto

Reli aquele maldito texto que você escreveu pra ela.

Estava buscando uma frase no Facebook e o algoritmo decidiu trazer esse maldito texto. Associou minha curiosidade aleatória a uma das maiores feridas emocionais que já tive.

Reli o maldito texto e cada parágrafo de tão devotado sentimento novamente rasgou cada retalho daquilo que outrora chamei de alma.

Eu já te amava quando você enviou esse maldito texto para mim naquela noite. Talvez esperando uma palavra de conforto, um conselho.

Mas só consegui enviar alguns emojis, pra logo em seguida cair em um choro copioso e dolorido. Você chorava, eu chorava e não havia ligação nenhuma entre as lágrimas que vc derramava, com as minhas que molharam meu travesseiro por mais algumas noites seguintes. A única coisa que se assemelhava era a dor.

Descobri que dói até hoje.

Ao reler aquele maldito texto, a dor, o choro e uma raiva silenciosa tomaram conta de mim.

Muita coisa aconteceu entre a gente desde aquele dia, e reler esse maldito texto só confirmou que eu estou ocupando um lugar que não é meu.

Você me encaixou em alguns dos buracos que ela deixou.

Na buraco que a série que assistiram juntos deixou, no buraco ao lado da cama, nos buracos das gotas do chuveiro, nos buracos da convivência diária, nos buracos dos lugares que foram juntos, até deixou isso claro ao lembrar que estávamos no mesmo quarto de hotel que se hospedou com ela.

A diferença é que agora você revive tudo isso sem sentimento ou emoção alguma. Só revive as lembranças me usando como um molde que ocupa o espaço que era dela.

Eu só chego no jardim quando ele já morreu. E tenho que aceitar somente ouvir histórias de quando esse lugar era cheio de vida e flores.

Ocupando buracos que não foram deixados por mim.

Quebra-cabeça

“A gente vai fingindo que entende as pecinhas e colocando as semelhantes juntas, uma hora faz algum sentido e daí conseguimos ver se o que estamos fazendo tá certo ou não”

As palavras ditas pela minha mãe olhando pro celular e explicando como ela joga um joguinho simples de quebra-cabeça pra mim tiveram um sentido e impacto muito diferente do contexto que ela tentava me explicar. Ela naquele momento me lembrava de como eu andava levando minha vida a anos, fingindo entender e continuando, mas até aquele momento eu não havia entendido nada, só estava continuando, mas pra onde? Continuando o que?

I

Eu estou em um momento da minha vida como uma rosa do deserto, sendo levada pra todo lado pelo vento a espera de encontrar uma poça de água que me hidrate e me mantenha viva, pior, criando poças ilusórias onde só eu enxergo água potável. Apenas reagindo a estímulos, negando a aridez do deserto que tô passando, nem ânimo pra questionar incômodos eu tenho mais. Tudo virou um grande “Ok, tudo bem”.

Não está tudo bem.

II

A algumas semanas eu decidi viver uma personagem, uma personagem engraçada, de risada solta e alta mas que antes mesmo de terminar a risada já sente por dentro uma tristeza ao lembrar que aquela gargalhada sonora e cheia de energia não é genuinamente felicidade mas só encenação, eu não quero ser desagradável, apenas.

Sorria e finja ser uma boa menina.

Sorria

A verdade é que toda noite essa personagem adormece e a atriz continua acordada, sozinha e triste.

Por dentro me sinto como um grande castelo, onde apenas em dias festivos você vê som, alegria, festa e gente animada. Mas que diariamente vive vazio, ecoando o som do vento que entra pelas janelas imensas e faz cortinas balançarem nos corredores vazios.

Um castelo belo porém vazio.

As peças da minha vida não se encaixam, nao enxergo peças semelhantes, eu não vejo sentido algum no que eu faço. Sinto como se eu apenas estivesse embaralhando mais todas as minúsculas peças. Mas eu continuo.

Raras vezes eu até tenho o formato do espaço que falta no jogo, mas não sou a peça daquele espaço e quando a peça correta aparece eu sempre tenho que sair e ceder o lugar.

Eu não consigo enxergar o tabuleiro porque eu estou nele.

Eu sou a peça que não encaixa em canto nenhum.

Mais um ou menos um?

Todo dia ao acordar eu sinto como se minhas costas estivessem coladas na cama, não, não como uma preguiça boa mas como se um peso absurdo estivesse sobre meu peito me fazendo afundar nos lençóis. Ouço toda a vida lá fora com suas cores e sons mas pouco sentido faz pra mim, porque não me sinto incluída naquela vida

O peso dói, esmaga e quebra minhas costelas quando faço o esforço de levantar. Sempre tô com “aii minhas costas” na ponta da língua, mas não são as costas que doem e sim a alma, porém não quero ser o tipo de pessoa que vive pelos cantos reclamando as dores de dentro. Ninguém se importa com essas dores que nascem lá no fundo do peito

Talvez por isso ao menor sinal de que eu precise acessar essa área os olhos gritam primeiro derramando lágrimas que muitas vezes não condizem com o semblante sem forças e pedindo socorro.

O mundo não está nem aí pras minhas dores. O mundo tem outras coisas pra resolver e se preocupar, o dólar, a bolsa, os artigos atrasados, as exibições de conquistas de pessoas que conseguem mascarar a mesma dor, aquele filme que tá pra estreiar, aquela selfie exaltando um corpo belo e vazio. O mundo tá ocupado, deixa ele lá.

Hora de levantar e pensar: é mais um dia ou menos um dia?

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